Olharam todos para a roda bela, grande, redonda e quebrada de carroça no chão.
- Supimpa. - disse o Rafa sem, de fato, estar achando aquilo sequer próximo de supimpa.
- Acontece, cara. - consolou a May.
- Mas, gente!! Se a gente ficar parado aqui, não vamos conseguir chegar à tempo! - exasperou-se a Carol. - Essa não! Se a gente não chegar a tempo, eu não vou poder dançar!!
- Sossega aí, cão. - reclamou o Rafa, questionando com uma raiva perene, porém quase conformada, a satisfação que o universo tinha em ferrar sua vida das formas mais inusitadas. - Se quiser levar a carroça nas costas, pode começar!
- A culpa é do governo corrupto, que não tá nem aí pro cidadão e faz merda nenhuma pra consertar as estradas! - refletiu a Lê, saindo da carroça.
- Lê, na verdade a gente tá numa rodovia, ó! - a Isa corrigiu, com suavidade. - Pavimentada... Alguém sabe o número do DNIT?
- E paralelepípedos de pedra são considerados pavimento? - perguntou a Michelle, com curiosidade sincera.
- Na verdade são hexágonos de pedra, mas whatever. - disse o Piá, agachando-se. - E eu concordo com a Lê! Aqueles putos só querem saber de reajuste de salário, mas consertar as..., hmm, vias!, eles não fazem.
- AAAAH! - urrou o Rafa. - Do que raios cês tão falando?! Vocês tão se ouvindo?! O que importa se isso é rodovia, estrada, trilho de trem ou o escambau?! Não tão vendo que a gente tá ferrado?!
- Ai, que estresse, isso não é nada demais! - falou a Mayara. - Deve ter alguma oficina por perto!
Os oito (porque o Tito também estava lá, embora quieto e ensaiando risadas diabólicas mentalmente) olharam ao redor.
Coloquemos desta forma: se houvesse um espaço vazio e silencioso tão vazio e silencioso que começasse a gritar de medo de si mesmo só para preencher-se de som e dar uma relaxada na tensão, esse lugar seria menos vazio e silencioso do que o que a trupe estava.
Ok, talvez tenha sido um exagero essa descrição, afinal, os grilos (provavelmente a participação do Mikhael na história) e as criaturas ocultas da noite ajudavam a quebrar o gelo.
Era basicamente campo desolado, estrada/rodovia de paralelepípedos/hexágonos e campo desolado de novo. Nada mais. Ah sim, e a lua lá em cima, macabramente cheia (de ódio, mwahuahuaha!) e envolta em nuvens negras afro-descendentes.
- Hmm... Sem querer ser pessimista... mas acho que não tem nenhuma oficina por essas bandas não. - disse o Piá.
- Pode estar invisível. - sugeriu a Michelle, olhando absorta para a cratera no solo que havia, em primeiro lugar, causado toda a situação. Ela tinha um formato similar à silhueta do Jô Soares, mas isso não era surpreendente, pois buracos costumam com frequência ser redondos.
- Como é que você não viu o buraco, Rafa?! - perguntou bastante angustiada a Carol.
- Ah, obrigado por vocalizar meus pensamentos. - disse ele, olhando fixo para o conjunto "roda-buraco", com os olhos arregalados e a expressão inquieta - Agora com licença que eu vou ali, no NADA, me matar um pouquinho.
- Não, gente, chega de besteira! - falou a Isa, tentando acalmá-los. - Isso é uma merda, mas... tá, é só uma merda mesmo, mais nada.
- A gente pode... acampar aqui hoje. - sugeriu a Mayara, já com uma barraca debaixo do ombro.
- Mas a gente tem que chegar na cidade logo! Eles vão pôr alguém pra se apresentar no nosso lugar!
- Tudo bem, a gente vai ser devorado por alguma bizarrice hoje e amanhã isso não vai importar mais.
Claro que essa tentativa de consolo da Michelle acalmou muito a Carol. A noite começou a ficar mais fria, uivos esquisitos começaram a brotar de florestas que não estavam lá, e uma fina neblina laranja axadrezada com roxo começou a aparecer aos pés deles.
- A gente poderia ir andando, não? - disse a Lê, já calçando seu novo par de Adidas Kingdom-Runner com amortecedor e luzinhas.
- E as coisas?! - reclamou o Piá. - Eu não consigo carregar um cravo, dois alaúdes, as flautas, os tambores e a máquina de refrigerante nos ombros! As leis fundamentais sobre forças são bem claras quando dizem que...
- Tá, não rola de ir andando! - interrompeu a Isa, salvando a trupe de ouvir uma dissertação maçante e complexa, apesar de correta, sobre porque um jovem não é capaz de carregar muita coisa nos ombros. - Mas eu posso ir voando até... sei lá onde, procurando por um sinal de vida, alguém que possa nos ajudar.
- Justo! - respondeu a May, jogando a barraca de volta na carroça rodeta (quem não tem uma perna é perneta, logo, quem não tem uma roda...). - Tenta encontrar de preferência alguém com comida!
- Hmm... Só tem um problema... - disse a Isa, tímida. - Eu tenho medo de escuro...
- Mas tá mó claro! - falou o Rafa, enquanto afiava uma farpa da roda quebrada para que ela pudesse penetrar debaixo de uma unha com facilidade. - A lua...
Só que foi o Rafa quem falou, então, obviamente, as nuvens encobriram a colega redonda e não feita de queijo no mesmo instante.
Silêncio. Subitamente, ouve-se um som terrível ao longe. O pior som que algum deles jamais ouviu. A trupe, arrepiada, presta muita atenção, e ao identificar o ruído nefasto, alguns de seus pêlos (a reforma ortográfica não fora (mal-)pensada ainda na Idade Média) se eriçam tanto que se desprendem da pele e fogem de medo como garotinhas.
- PELAMORDEDEUS, ISA, SÓ VAI! - gritou o Rafa, sacudindo a fada ruiva pelos ombros, aterrorizado. - Se a coisa que tá fazendo aquele barulho nos alcançar, a gente tá realmente perdido!!!
E a Isa, num impulso misturado de bravura, pavor e vontade de fazer xixi, simplesmente foi, voou, rapidamente ganhando o mundo com suas asas poderosas! ... de vinte centímetros.
- Isa, espera! - gritou novamente o Rafa, de lá da carroça. - Leve isto com você!
E entregou um pequeno chaveiro azul com circulozinhos apertáveis que reproduziam pessimamente o efeito de estourar plástico-bolha.
- Oh! Um amuleto?! Vai me proteger do mal?! Vai iluminar o caminho pra mim?! - ela tomou o objeto nas mãos com os olhos brilhando.
- Nah! Só faz uns barulhinhos legais se você aperta muitas vezes.
E com essa derradeira revelação broxante, voltou para perto do resto da trupe, que já armava os instrumentos musicais na estrada/rodovia/via-de-trânsito-rápido/ciclovia para tentar, com sua famosa música, contrabalancear o crescente e amedrontador "BABY, BABY, BABY... OOOH!" que se aproximava.
A pequena fada ruiva, munida apenas do inútil aparato azul e de sua poderosa tatuagem de estrelinhas, voou sobre a paisagem desolada em busca de ajuda.
vai me proteger do mal?..não só faz um barulhinho legal auhsUIASHIUASHUAS
ResponderExcluirahh...que rafa rafaelico 8D
você é muito bom nismo MESMO!
te amo ^^/....muito!!! xD
Eu é que te amo demais, por me apoiar tanto e trazer tanta alegria pra minha vida, fadinha!^^
ResponderExcluir(sim, momento use-o-blog-pra-falar-coisas-gays-pra-namorada, algum problema?)