terça-feira, 1 de março de 2011

Gian's Saga 1 - No Jefferson's

Acordei assustado, com a cabeça latejando.
A primeira coisa que vi foi o céu acima, margeado por árvores de copas bronzeadas. Ao meu lado, podia sentir a grama fresca e alta, roçando meu corpo caído. O sol já devia estar no final de seu ciclo, pois as nuvens reinavam solitárias e alaranjadas lá no alto.
Depois desse momento de pura sensação, minha consciência pareceu voltar à cabeça dolorida, pois senti medo.
O que eu estava fazendo deitado ali? Que lugar era aquele? Como eu tinha conseguido um ferimento na cabeça?
Muitas perguntas, muitos receios. Não tive coragem de me mexer, pois não sabia o que poderia encontrar caso ousasse olhar. Seria melhor fingir que estava morto? Quem teria me atacado? O que queriam de mim?! Porque o Pato Donald enrola a toalha na cintura quando sai do banho se ele nunca usa calças?!
- Ô, lagarto! - disse uma voz à minha esquerda, parecendo confusa - Cê vai ficar aí deitado mesmo ou vai devolver o cavalo?! Se ele fugir você vai ter que cobrir o prejuízo, fera!
Resolvi me levantar, apesar do evidente perigo que me aguardava. E me encontrei sentado no gramado dos fundos da taverna, com um cavalo parado mais à frente, pastando, e um homem de cabelos pretos e sardento me espiando indignado.
- Quê que deu?
- Como assim "quê que deu"?! Tá falando de você ter batido a cabeça no galho ou de ter ficado deitado aí que nem um gambá morto?! Eu tenho clientes esperando lá dentro, escamoso, então dá pra ser?!
E foi então que todas as lembranças me voltaram. Eu pagara ao dono da taverna para treinar com o cavalo dos estábulos na orla da floresta, afinal de contas, se eu quisesse ser um arqueiro pra valer, tinha que saber atirar montado e decorar todos os nomes dos territórios de War.
Eu já havia decorado 37 nomes, incluindo Vladivostok, claro, mas de cavalos, eu não sabia nada.
E nessa tarde, descobri que sabia menos ainda de galhos das trevas.
O poderoso deus pagão Murphius agira novamente sobre a minha vida, pois o maldito pedaço de árvore brotara por geração espontânea na frente da minha testa, só podia!
...Ou talvez eu estivesse distraído com aquele cogumelo.
Sacudi a cabeça doída, juntei minhas coisas e levantei pra ir atrás do cavalo.
- Desculpe, hein! Mas é um corno o galho que faz isso!
- Só pegue-o logo, que eu ainda tenho que escrever uma poesia pro meu perga-blog hoje!
Encontrei o animal em redor de um buraco. Ali, tudo era beira. Mas, curiosamente, o animal não estava sem vida. Levei-o de volta ao taverneiro, coçando a testa.
- Brigado aê, ahn...
- Pedro. - disse o homem, prendendo o cavalo à cerca. - Agora que tal uma bebida quente, eh?! Nosso fornecedor enviou hoje mesmo um drinque fantástico de...
- Pode ser, pode ser. - disse eu entrando no ambiente ruidoso e alegre da taverna Jefferson's. - Se não tiver cheiro de morte ou me custar um rim, pode trazer.
- De boa, manolo. - disse o taverneiro Pedro. E fechou a porta dos fundos, deixando o cavalo solitário e magro lá fora, enquanto um sol belo, azul, se punha no horizonte desolado.
Dentro da Jefferson's, tudo era barulho, bebida e barbas.
Sentei-me ao balcão e esperei pela bebida, que chegou fumegante e com cor de pé. Tomei um gole.
A bebida desceu queimando meu esôfago argoniano, tão resistente a venenos. Tinha gosto de pé.
- Ainda dói? - perguntou Pedro, apontando com a cabeça para a minha cabeça, enquanto escrevia num pergaminho (mas não com a cabeça!).
- Yep. E agora minha garganta também. - disse eu despreocupado, tomando mais um gole.
- Você nunca tinha montado num cavalo, fera?
- Claro que sim! Foi aquele galho que me atacou. Eu nunca tinha sido atacado por um galho! - refleti.
- Há! Claro. Galhos do mal sempre atacam viajantes por essas bandas. - respondeu ele, sarcástico. Anotou algo mais no pergaminho e foi atender os bárbaros sedentos que se acotovelavam nas mesinhas e jogavam Touchdown.
Terminei a bebida pavorosamente ruim e forte e recostei-me numa viga. Foi então que minha irmã apareceu. Tá, ela não é minha irmã de verdade na história, mas de qualquer forma, é a minha irmã na vida real. Deu pra captar? Hmm... Melhor eu só continuar.
A jovem manceba entrara havia pouco na taverna, vestida inteiramente com um uniforme todo preto, que ia do pescoço aos pés em botas, incluindo calças, luvas, cotoveleiras, blusa, abotoaduras, bolsos internos e externos, colete, cinto de utilidades e lenço para truques de mágica. Veio silenciosa em direção ao balcão, esperando pelo retorno do taverneiro, mas acho que deve ter ficado admirada com minha inacreditável beleza reptiliana, pois estacou ao virar pra mim.
Como ela não é minha irmã na história, eu olhei pra ela, tranquilamente, e proferi com altivez:
- E aê?!
Mas ela não me pareceu muito entusiasmada, e sim intrigada. Olhava para minha testa compenetrada. E tão subitamente quanto olhou para mim, puxou-me pela camisa para sussurrar algo em meu ouvido (só ouvido mesmo, já que orelhas eu não tenho):
- Nos fundos em dois minutos, argonian!
Eu acho que a bebida horrorosa já estava começando a fazer efeito, porque eu sequer achei esquisito que uma jovem vestida para matar pudesse ter negócios comigo, um reles lagarto aspirante à arqueiro. E lá fui eu, dois minutos depois que ela saiu, driblando as mesas apinhadas de beberrões, encontrar meu destino. Nossa, isso foi profundo.
Pela segunda vez naquele dia, saí pela porta dos fundos. Cumprimentei o cavalo com uma mesura (que é uma palavra legal, porque lembra "belezura") e achei a moça de preto próxima à árvore cujo galho do inferno havia se chocado contra mim.
- Você deve ir até o cruzamento da estrada Berenice com a trilha para o "Fim do Mundo". - disse ela, séria e eficiente. - À meia-noite da próxima segunda, um enviado estará esperando por lá.
- Peraí, segunda?! Mas segunda é um dia tão chato!
- É, mas logo em seguida já vai ser terça, sacou?! E terça é sempre maneiro.
- Hmm... Tá, assim sim. Mas peraê, ow! Que papo é esse de esperar no cruzamento da Beremundo?
- Olha, argonian, eu não estou com tempo pra desperdiçar! Vai começar Big Bang Theory daqui a pouco, e eu não tô afim de perder. - disse ela, me entregando um pergaminho dobrado. - Hoje o Sheldonius vai revelar que o mundo é redondo. Há! Só em seriado mesmo!
E afastou-se, rindo, em direção a floresta.
- Espera aí, moça! O que você quer comigo afinal?! Eu não entendi nada!
- Pare de me testar, lagarto! Me disseram pra passar a mensagem pro cara com a marca de dragão na testa, só isso! Você sabe muito bem que o resto é contigo! - e foi desaparecendo à distância, sua voz se tornando cada vez mais parecida com um murmúrio rouco de mosca-da-fruta gripada. - Se quiser reclamar, o número do magofone é...
E não ouvi mais nada.
Aquilo intrigou-me. Guardei o pergaminho no bolso, xinguei o galho, só pra me sentir melhor, e voltei pra dentro. Pedi a Pedro qualquer coisa que servisse de espelho, e ele me emprestou uma bola de gude.
- Feita sobre medida. - disse, irônico, ao me entregar.
E não é que a maldita batida na cabeça tinha deixado uma marca parecida com um dragão na minha testa?!
Incrível! Tudo bem que ele parecia manco, mas a gente releva isso.
"Nossa!", pensei comigo mesmo, "Que loucura!"
Mas eu já não estava mais muito sóbrio para perceber que, ao invés de achar aquela situação bacana, o mais sensato a fazer seria correr em círculos e gritar que nem uma mulherzinha:
- Tenho um encontro segunda à noite! - falei, todo serelepe, pro monte de sujeira e barba que era o homem que havia sentado ao meu lado no balcão.
- Que ótimo, porque eu não! - resmungou o barbudo. - Ninguém apareceu, entende?! Ninguém!
Eu não entendia mais nada àquela altura do campeonato, por isso só consolei o homem, paguei por uma porção de batatas fritas e fiquei imaginando como seria legal se eu conseguisse voar.
Só fui me tocar uma semana depois que o homem sujo e barbudo que reclamou da solidão lá na taverna tinha uma tatuagem de dragão na testa. E daí veio a epifania óbvia: é um lugar esquisito pra uma tatuagem, não é?...

2 comentários:

  1. Uuuhhh... Gostei disso!!! Mano, vc tem o dibre pra escrever! Tá bem lesgal!!

    "Encontrei o animal em redor de um buraco. Ali, tudo era beira. Mas, curiosamente, o animal não estava sem vida."

    Vai ver ele era meio punqui... ou era funqui...?

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  2. e la dentro tudo era barulho, bebida e barbas aushUAshUAHSUasihAUshasUIASHUAIS
    em redor do buraco tudo era beira..mas curiosamente o animal estava vivo!...ainda bem cara O.O'..ele estava com vida!
    FALEI COM ALTIVEZ...E AE?!
    aushUSHAUISHUISausUAshIUASHUASUAShUAs
    muito bom, amor
    eu te amo ;*

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